Festinhas, botinhas e muitas dúvidas. Os quatro meses de incertezas até nascer Lourenço.

25-03-2019 09:51

As dúvidas dos médicos, o carinho dos enfermeiros, as complicações diárias, a história que levou Sandra até São José. A reconstituição dos bastidores da história do bebé-milagre, Lourenço Salvador.

oram dias, semanas, meses de dúvidas, discussões, de avanços e recuos, de sucessos e de complicações, de esperança e ceticismo, de compromisso, de foco. De dor e de amor. De morte e de vida. Quase quatro meses de emoções fortes e contrastantes vividas pelos familiares e pela equipa da unidade de cuidados intensivos de neurocríticos do Hospital de São José, em Lisboa, que conseguiu um feito inédito em Portugal e raríssimo em todo o mundo: garantir que Sandra Pedro, em morte cerebral desde 20 de fevereiro, fosse, durante 15 semanas, a “incubadora viva” do filho que carregava no ventre. Lourenço nasceu no dia 7 de junho, com 32 semanas.

“Para nós foi sobretudo um desafio ético e profissional muito importante. Apesar de lidarmos todos os dias com a vida e com a morte, isto foi completamente diferente”, afirma o enfermeiro João ao Observador. “Dúvidas existiram sempre, só havia a certeza que tínhamos de preservar aquela vida [a da criança]”, enfatiza. E essa certeza era suportada pela decisão — que não terá sido unânime — da Comissão de Ética que avaliou o caso e que decidiu pela continuação da gravidez, numa visão “pró-vida”, mesmo que a família não o quisesse.

“Todo este processo, este esforço, só fazia sentido se corresse bem, se não deixava de fazer sentido. Todos nós fomos afetados do ponto de vista emocional. Eu sou mãe e senti uma dualidade de sentimentos muito grande, só pensava como é que aquela criança iria ficar”, conta a médica intensivista Susana Afonso.

A enfermeira Maria diz que toda a história “é super emocionante”. “A minha crença é que nesta vida nada acontece por acaso e eu acho que esta criança tem uma missão de vida”, acrescenta, dizendo-se “feliz porque ninguém acreditava que fosse possível isto acontecer”. Ninguém, ponto e vírgula. Beatriz garante que sempre acreditou. “Havia muita gente cética, mas eu sempre acreditei até porque para o fim já não havia grande instabilidade.”

Superar complicações, controlar tudo. Quatro meses a cuidar

Mas isso foi no fim, o mesmo não se pode dizer em relação ao início, nem se pode daí concluir que foi fácil conduzir este processo. Os cuidados intensivos são por natureza muito exigentes e num caso de morte cerebral é preciso assegurar que os restantes órgãos vitais não entram em falência. Mas no caso de Sandra o desafio foi ainda maior, porque os profissionais de saúde tiveram de garantir aquela situação durante quase quatro meses, assegurando o bem-estar do feto que se estava a gerar, contam vários profissionais da unidade. E sem saberem se resultaria.

Cada minuto contava. A cada momento — o primeiro mês foi o mais complicado — surgia uma complicação que tinha de ser, de imediato, atacada. Exemplos disso foram infeções, insuficiência respiratória, uma pneumonia, uma pielonefrite (que obrigou a colocar um cateter direto ao rim para que a urina pudesse ser expulsa do organismo), entre outros problemas.

Além disso, foi necessário controlar muito bem a nutrição — dando um preparado através de um tubo ligado ao estômago nas quantidades indicadas às necessidades de uma grávida —, a hidratação, a glicemia — fazendo análises de duas em duas horas — e as pressões arteriais, para que o feto tivesse glicose e oxigénio para se desenvolver. Também era preciso garantir a oxigenação e o bom funcionamento do fígado e dos rins.

“Houve momentos em que estivemos em permanência numa cadeira ao lado da cama com o monitor à frente e duas drogas antagonistas em curso ao mesmo tempo para controlar a tensão da Sandra”, exemplifica João, explicando que o ideal seria haver um único enfermeiro dedicado àquela mulher, mas que a falta de pessoal não permitia alterar o rácio de um enfermeiro para dois doentes. A maior parte do tempo, Sandra esteve sozinha no quarto duplo. Mas às vezes, até tinha de ter a companhia de outro doente em situação crítica.

E os cuidados não se ficaram por aqui. Os enfermeiros desta unidade tinham ainda de lhe dar banho completo todos os dias, lavar-lhe os dentes, cortar as unhasaspirar as secreções (pois ela produzia saliva), hidratar os globos oculares com gotas de manhã e pomada à noite, hidratar a pele e ir reposicionando o corpo para evitar que se formassem feridas. Tudo aquilo com que têm de se preocupar em grande parte das pessoas que chegam habitualmente àquela unidade, mas que dez vez era diferente: a desta doente em morte cerebral, mas a gerar uma vida.

O mais complicado foi no início porque foi preciso decidir exatamente o que se ia fazer e acertar doses. Foi um processo muito desafiante, que implicou muito estudo e discussão clínica. Decidir que fármacos daríamos e se daríamos de forma intermitente ou contínua, perceber como o cérebro funciona e se estimula sempre. Íamos tomando decisões e voltávamos atrás. Íamos ajustando. O feedback dos obstetras da Maternidade Alfredo da Costa dava-nos força para continuar”, detalha ao Observador Susana Afonso, médica intensivista daquela unidade.

A força estava lá e o empenho também, mas ainda assim “foi muito, muito difícil prolongar esta situação de morte cerebral”, até porque é um caso tão raro que não havia muitas orientações que se pudessem seguir e todos sabiam que a qualquer momento tudo podia mudar. E foi precisamente a raridade do caso que despertou a curiosidade um pouco por todo o hospital. De tal forma que vários foram os profissionais que iam acedendo ao processo clínico de Sandra, tentando acompanhar tudo o que se ia passando. Ao ponto da equipa que liderava o caso ter-se visto obrigada a apagar o nome da doente da ficha, para manter o maior sigilo possível dentro do hospital e assim evitar que o caso se tornasse público.

Mas o interesse médico manteve-se, levando mesmo um médico a pedir para ser assistente do anestesista no momento da cesariana, assim que se soube que o “milagre” iria acontecer, só para poder referi-lo no seu currículo. Afinal de contas seria um momento histórico.

Foi. Mas até esse momento, houve um longo e instável percurso, com muitos altos e baixos. “A biologia é fantástica e o bebé acabou por estabilizar o organismo, porque um doente em morte cerebral não aceita a alimentação e a Sandra aguentou”, destaca a enfermeira Maria.

 

Voltar