Javalis estão a perder o medo dos humanos e a descer às cidades de muitas cidades da Europa.

14-03-2019 16:23

ESTA AUMENTANDO NO NUMERO DE JAVALIS EM ALGUMAS CIDADES DA EUROPA

Provocam acidentes nas estradas, arrasam jardins e vagueiam pelas ruas de alguns bairros ao cair da noite. Os javalis são uma nova ameaça para as cidades. Um pouco por toda a Europa chegam relatos de avistamentos destes animais em zonas de concentração humana impensáveis como a Avenida Diagonal, ou a Praça da Catalunha, em Barcelona, Espanha, bem como em algumas avenidas centrais de Berlim. Na capital alemã, um estudo com pouco mais de um ano aponta para cerca de três mil exemplares a rondar o perímetro urbano. Situação também preocupante em Roma, que se debate há meses com uma crise de recolha de lixo, uma fonte de alimento privilegiada para esta espécie. Aqui ao lado, o Governo Autónomo da Galiza acaba de decretar "guerra" aos porcos selvagens depois de "invasões" a cidades como Vigo, La Corunha ou Lugo.

 

Embora em Portugal o fenómeno não tenha ainda atingido proporções idênticas, já houve casos. José Diogo nem queria acreditar quando lhe ligaram às 6.30 da manhã, em setembro de 2017, a dizer-lhe que o seu restaurante, na zona ribeirinha de Setúbal, tinha sido atacado por javalis. "Aproveitaram a maré vazia e vieram pela água", recorda, ao JN Urbano, o empresário e dono do Âncora Azul. "Ficou tudo num alvoroço, com vidros partidos e mesas derrubadas", descreve, lembrando o prejuízo de 1000 euros que a "invasão" lhe deixou.

Carlos Fonseca, biólogo e investigador da Universidade de Aveiro, estuda esta espécie há anos e explica o fenómeno com dois fatores essenciais. "Há um aumento exponencial da população de javalis nos últimos anos, sendo que este crescimento aconteceu de forma natural", refere ao JN Urbano. Paralelamente, sublinha, deu-se a "invasão" humana do meio natural dos animais: "A construção desenfreada e a expansão urbana também levaram a uma ocupação do que até há bem pouco tempo eram áreas abandonadas".

Mas para o investigador um outro fator é determinante. "Há uma população urbana que não faz bem distinção entre animais selvagens e domésticos, acabando por alimentar algumas espécies, pensando que está a fazer um ato muito importante, muito relevante, mas, na verdade, está a ser completamente contraproducente, porque o animal selvagem acaba por desenvolver hábitos quase semiurbanos, o que é um contrassenso", alerta.

"Ataque a humanos" não é um termo correto, até porque, defende Carlos Fonseca, "ao contrário do que se diz, o javali não é violento". "Muitas vezes, no caso das cidades, o javali não ataca as pessoas, mas um saco de compras que estas tragam na mão, porque está habituado a associar o saco ao alimento, porque é deste que as pessoas o tiram para lhe dar", explica.

Em Portugal - onde os biólogos calculam que a população de javalis se situe entre os 100 e os 150 mil exemplares -, além de Setúbal, há relatos de presença desta espécie em Coimbra e Ovar, mas, para o investigador, a manter-se este cenário, o fenómeno pode evoluir. "Se daqui a uns tempos aparecer uma notícia de um animal destes perto, ou mesmo no centro de Lisboa, não me admira", confessa. A presença desta espécie selvagem em meios urbanos acarreta não só perigo de acidentes rodoviários - há vários casos mortais por toda a Europa - mas também ao nível da saúde pública. "Esta aproximação ao homem pode ser contraproducente, porque o javali, como espécie selvagem, é um potencial portador de doenças, as chamadas zoonoses, transmissíveis ao Homem", alerta Carlos Fonseca

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